Analisas chineses consideram nova estratégia dos EUA recuo temporário
- 30/12/2025
A análise, conduzida pelo investigador Jacob Mardell e baseada em mais de 30 artigos de académicos e pesquisadores chineses, apontou que o documento norte-americano é interpretado como "recalibração forçada" face ao declínio relativo dos Estados Unidos, e não como uma mudança ideológica voluntária, como defenderam vários analistas ocidentais.
"O tom dominante é de cautela, e não de triunfalismo", referiu o estudo, publicado no boletim Sinification.
"Muitos alertam que esta retração poderá gerar instabilidade, e alguns duvidam até que o recuo seja real", acrescentou.
Mardell referiu que uma das leituras mais difundidas é a de que se trata de um "recuo estratégico", para permitir aos EUA recuperar forças e regressar mais adiante com renovada capacidade.
Vários autores compararam esta fase a um ciclo semelhante ao vivido durante a Guerra Fria, entre as presidências de Richard Nixon e Ronald Reagan.
Outra corrente defendeu que, apesar de um discurso mais brando, Washington mantém intacta a intenção de conter a China, inclusive através da mobilização de alianças.
"Está orientada contra a China em todo o lado, apenas de forma menos explícita", escreveu um dos comentadores citados.
A designação da China como "concorrente de nível equivalente" é interpretada como reconhecimento tácito da força estratégica de Pequim, enquanto o novo tom do documento é visto como uma mudança de método hegemónico, com menor retórica agressiva, mas compromisso reforçado com a competição de longo prazo.
Entre as interpretações mais inquietantes figura a possibilidade de uma transição da disputa ideológica para um confronto "civilizacional", em que a identidade ocidental promovida pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, possa servir de base a uma mobilização ocidental mais coesa contra a China, substituindo a aliança baseada em valores por uma baseada em afinidades culturais.
O relatório citou ainda especulações nos círculos chineses sobre uma possível divisão de esferas de influência, que alguns apelidaram de "Yalta 2.0", embora a maioria dos autores rejeite esta hipótese como rumor e veja antes uma reafirmação da lógica de "áreas de influência" disfarçada de nova estratégia.
Sobre a NATO, os analistas chineses previram uma reconfiguração com transferência de custos para a Europa, mas manutenção do controlo político-militar em Washington. Alguns falaram numa "aliança de custos", em substituição da tradicional "aliança de valores".
A visão dominante é a de que a nova doutrina de Trump representa uma tentativa de "auto-resgate estratégico", que recorda o antigo princípio chinês de "esconder forças e ganhar tempo". Mas, para uma minoria de analistas, o desfasamento entre ambições e meios vai acelerar o declínio dos EUA.
Embora o documento utilize uma linguagem menos agressiva em relação à China, os autores sublinharam que a pressão deve manter-se, sobretudo por via indireta, através de aliados.
"Até uma estabilização aparente pode ser mais dura a longo prazo", alertou um dos textos, ao comparar a disputa com uma mudança de "futebol americano para a corrida numa maratona".
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