De Manuel Subtil ao BES: Casos de barricados que marcaram Portugal
- 31/12/2025
O caso de Sérgio Ribeiro, militar da GNR condenado a 13 anos de prisão efetiva que se barricou durante 16 horas no posto de Felgueiras para não ser conduzido ao estabelecimento prisional onde vai cumprir pena, fez recordar vários casos de barricados em Portugal com histórias dignas de filmes de Hollywood (ou de documentários da Netflix).
Um dos casos mais conhecidos é o de Manuel Subtil (na imagem), um empresário de Cernache, distrito de Coimbra, que se barricou durante oito horas, numa das casas de banho da RTP, localizada em Lisboa.
Era 4 de janeiro de 2001 quando Manuel Subtil se trancou com a mulher, a ex-mulher e duas filhas na divisão. O protesto contra a lentidão da Justiça fez entrar para o léxico português a palavra "barricado", como lembra a SIC Notícias.
Um ano antes, a RTP tinha sido condenada a pagar uma indemnização ao empresário na sequência de uma reportagem, emitida em 1990.
A peça punha em causa a seriedade da empresa de que era proprietário e, segundo Manuel Subtil, conduziu à falência do negócio, que dirigia em Paris e que estaria envolvida em burlas relacionadas com a legalização de emigrantes em França.
Além de exigir o direito de resposta à estação de televisão, o empresário exigia ainda uma indemnização ao canal público de televisão no valor de 100 mil contos.
A RTP recorreu da decisão. Sem informações sobre o processo que se arrastava, e sem indemnização que lhe permitisse começar de novo, Manuel Subtil decidiu tomar uma atitude radical: barricou-se com a família, ameaçou acabar com a própria vida e detonar explosivos que alegava ter em sua posse.
Durante várias horas, centenas de pessoas reuniram-se na Avenida 5 de Outubro para assistir ao desfecho dos acontecimentos.
Os negociadores conseguiram chegar a acordo com o barricado oito horas depois e este entregou-se pacificamente, sem que ninguém ficasse ferido.
Manuel Subtil acabou condenado a quatro anos de prisão com pena suspensa e a pagar uma indemnização a 40 mil euros mais juros à RTP, bem como os custos legais do processo, por danos patrimoniais e não patrimoniais, em dezembro de 2007, pelos crimes de sequestro, extorsão tentada, coacção grave, ofensa a pessoa colectiva e posse de arma.
Ameaça explodir BES com engenho feito de "massa de lasanha"
A 5 de outubro de 2006, Vítor Pereira barricou-se numa agência do BES, em Setúbal, com quatro reféns num ato de "desespero" para ser ouvido, como revelou posteriormente, em julgamento.
Na altura, o homem revelou, segundo o jornal Público, que foi "arrastado para a miséria" devido "ao protelamento da decisão daquela instituição bancária sobre um empréstimo de 175 mil euros".
"Queria mostrar aos dirigentes do BES, designadamente ao Ricardo Espírito Santo [presidente do banco], que, depois de tantos meses em que me podiam ter dito sim ou não [ao empréstimo], me arrastaram para a miséria", argumentou Vítor Pereira, que na altura do assalto explorava um snack-bar, junto ao Largo dos Combatentes, em Setúbal.
O empréstimo, como explicou na altura, destinava-se à aquisição de um estabelecimento comercial e ao pagamento de outros compromissos entretanto assumidos com a aquisição de equipamentos.
Também em tribunal, Vítor Pereira explicou que o suposto engenho com que ameaçou fazer explodir o BES não passava de um embuste que ele próprio forjou, com massa de lasanha, plasticina e alguns fios eléctricos.
Vítor Pereira acabou por assumir a maioria dos factos que lhe foram imputados na acusação, mas negou que alguma vez tivesse apontado a pistola aos reféns e que os tivesse obrigado a permanecerem no local durante as 13 horas que durou o incidente. Acabou condenado a quase seis anos de prisão efetiva e a pagar 10 mil euros a um dos reféns.
Assalto a BES de Campolide acabou com criminoso morto
Em agosto de 2008, dois assaltantes de nacionalidade brasileira mantiveram vários reféns sob ameaça de armas durante cerca de 8 horas numa agência do Banco Espírito Santo (BES) de Campolide, em Lisboa.
O caso, que se tornou num dos mais mediáticos de Portugal, terminou com uma intervenção do Grupo de Operações Especiais (GOE) da PSP. Um dos assaltantes acabou mesmo por ser baleado e morrer durante o assalto, enquanto o outro - Wellington Nazaré - ficou gravemente ferido, mas sobreviveu.
A 9 de julho de 2009, foi condenado a 11 anos de prisão efetiva roubo qualificado na forma consumada, seis crimes de sequestro e posse de arma proibida.
Após cumprir cinco anos de prisão, em 2013, foi expulso de Portugal e proibido de voltar ao país durante oito anos.
Tragédia no Pinhal Novo
Apesar da maioria dos casos de barricados em Portugal acabar bem, isso nem sempre acontece. No Pinhal Novo ocorreu um dos mais trágico de sempre, uma vez que terminou com duas mortes e vários feridos.
Segundo o Correio da Manhã, tudo aconteceu no restaurante O Refúgio. Mihail Codja, um cidadão moldavo, de 59 anos, que tinha integrado o exército russo e que, com o desmoronamento da então URSS, emigrou para Portugal, onde passou a viver, entrou no espaço e barricou-se.
O homem, que trabalhava na construção civil e já tinha feito alguns trabalhos para o dono do espaço de restauração, estaria revoltado. A sua vida estaria toda a desmoronar. Relações amorosas conflituosas, dívidas e, a alegada gota de água, uma doença oncológica.
Antes da tragédia, Mihail Codja já vivia em desgraça. Impossibilitado de trabalhar, vivia no carro e não tinha acesso à ajuda médica que precisava. Nem a medicamento que aliviassem a dor da leucemia que o tinha atingido.
No dia 23 de novembro de 2013, pelas 22h15, chegou a informação ao posto da GNR do Pinhal Novo de que um indivíduo se encontrava a provocar desacatos no interior do restaurante O Refúgio, naquela freguesia do concelho de Palmela.
Os agentes do posto contactaram os elementos que estavam na patrulha, tendo-os enviado para o local, no sentido de apurarem o que se passava. A patrulha era constituída por dois elementos, sendo um deles o guarda Bruno Chainho, de 31 anos.
Assim que chegaram ao local, e quando se aproximavam da entrada do referido restaurante, os agentes cruzaram-se com duas mulheres que tentavam sair do mesmo numa corrida desenfreada, rumo ao exterior e num estado de "pânico absoluto", como relata ainda o matutino.
Ao ver aquelas duas mulheres - mulher e filha do dono do restaurante - a correr naquele estado, o guarda Bruno Chainho puxou-as imediatamente para fora do restaurante, conseguindo retirá-las do local.
De seguida, entrou no estabelecimento no sentido de se aperceber do que se estava a passar. Segundos depois, foi atingido por um tiro, na cabeça.
O outro militar ainda o tentou ajudar, mas teve de se proteger. Mihail Codja tinha não só armas de fogo com si como explosivos à volta da cintura.
Uma das granadas que trazia foi, inclusive detonada no restaurante. Só não atingiu ninguém porque o dono do restaurante, com a ajuda do filho, conseguiu arremessá-la para a rua, onde explodiu sem causar quaisquer danos.
Já depois da chegada de mais elementos da GNR, Mihail Codja arremessou para o exterior outro engenho explosivo, que veio a cair junto dos militares e que culminou numa violenta explosão, provocando ferimentos em cinco agentes, que tiveram de ser de imediato transportados de urgência pelo INEM para o Hospital de São Bernardo, em Setúbal.
Devido à complexidade da situação, principalmente dado o facto de o suspeito estar fortemente armado, foi ativado o alerta de crise e alocados todos os recursos disponíveis, a fim de dirimir o incidente.
Para o local foi até encaminhada uma equipa de negociadores, para tentar a rendição de Mihail Codja.
As negociações arrastaram-se durante cerca de seis penosas horas, sem que existisse qualquer avanço aparente. Por volta das 5h da madrugada do dia 24 de novembro de 2013, quando tudo parecia calmo, o moldavo voltou a atacar e arremessou para o exterior do restaurante um novo engenho explosivo, que deflagrou junto de duas viaturas policiais, provocando a destruição das mesmas.
Nesse momento, o comando das operações, segundo o Correio da Manhã, "entendeu que estavam esgotadas todas as possibilidades de uma resolução pacífica para a situação" e, no seguimento de uma entrada tática no restaurante e de os elementos da GNR terem sido recebidos a tiro, Mihail Codja foi abatido.
As equipas do INEM ainda efetuaram manobras de reanimação para tentar salvar a vida ao sequestrador mas este acabou por morrer.
Leia Também: Entregou-se militar que se barricou no posto da GNR de Felgueiras



